← Blog
24 Abril 2026

Agricultura Regenerativa, Solo Vivo e Novas Ameaças: O Panorama da Sustentabilidade no Campo Português

Na última semana assisti a três eventos que ilustram bem a reviravolta que está a acontecer no setor agrícola, tanto em Portugal como ao nível global. A conferência da Quinta do Sampayo, com o tema “Agricultura Regenerativa – Sustentabilidade, Competitividade e Turismo”, reforçou a ideia de que o sucesso financeiro e a saúde do ecossistema já não são mais objectivos incompatíveis, mas duas faces da mesma moeda. O alerta lançado pelos organizadores — com o apoio do Expresso e do Boa Cama Boa Mesa — demonstra que os decisores já reconhecem que a regeneração do solo é a chave para garantir lucros estáveis a longo prazo, ao mesmo tempo que protege a biodiversidade.

Poucos dias depois, em Coruche, tive a oportunidade de participar no Dia Aberto “As Culturas de Cobertura, a Biodiversidade e a Vida do Solo”. Ali, agricultores, investigadores e técnicos juntaram‑se para mostrar, na prática, como as culturas de cobertura podem melhorar a estrutura do solo, aumentar a retenção de água e promover habitats para organismos benéficos. As soluções apresentadas — desde a rotação de leguminosas até a implementação de pórticos de insetos predadores — são exemplos concretos de como podemos tornar os sistemas agrícolas mais resilientes face a condições climáticas cada vez mais imprevisíveis.

Enquanto isso, do outro lado do mundo, as Filipinas estão a provar que a agroecologia não é só um modismo europeu, mas uma necessidade urgente. Agricultores filipinos têm adoptado a diversificação de culturas e técnicas agroecológicas para mitigar os efeitos de ciclones e secas extremas. O que me impressiona é a rapidez com que essas práticas se espalham, impulsionadas por comunidades locais que partilham conhecimento tradicional com ciência moderna. É um lembrete de que a adaptação climática deve ser construída a partir do nível de base, e não apenas por políticas de topo.

Infelizmente, nem tudo são boas notícias. A detecção recente em Portugal da vespa‑dos‑ramos, Ophelimus ramorum, representando uma nova praga para os eucaliptos, lança um alerta importante. As larvas desta espécie atacam os botões jovens de Eucalyptus globulus, comprometendo o crescimento das plantações e, por extensão, a indústria florestal. As autoridades já iniciaram monitorização intensiva e testes de controlo biológico, mas fica claro que a vigilância constante e a resposta rápida são essenciais para evitar uma invasão descontrolada.

Em suma, estas quatro notícias convergem para um ponto central: a necessidade de olhar para o solo e para a biodiversidade como pilares fundamentais da agricultura moderna. Seja através de eventos locais como o de Coruche, conferências de alto nível como a da Quinta do Sampayo, ou aprendendo com experiências internacionais nas Filipinas, o caminho para a sustentabilidade passa por práticas que regeneram, protegem e adaptam os nossos ecossistemas. Ao mesmo tempo, devemos estar vigilantes perante novas ameaças como a Ophelimus ramorum, pois a saúde do solo só será completa se conseguirmos controlar os riscos biológicos que emergem. Esta é a realidade que vejo diariamente no campo, e acredito que o futuro depende da nossa capacidade de integrar todos esses elementos num modelo verdadeiramente resiliente.


🔗 Fontes

← O Perigo da Tremocilha e o Poder da Marioila no Montado
O impacto da contaminante na produção agrícola e as novas abordagens de investimento →
💬 Comentários