A agricultura portuguesa enfrenta um paradoxo crítico: enquanto produz matérias-primas de qualidade, falha em capturar o valor agregado nas etapas subsequentes de transformação e comercialização. A exportação de produtos em bruto, sem processamento ou diferenciação, limita o retorno económico para o setor e o país. Este cenário exige uma reestruturação da cadeia de valor, com investimento em indústrias de transformação locais e estratégias de marca que destacem a origem e qualidade dos produtos nacionais.
As alterações climáticas emergem como outra ameaça estrutural, com projeções indicando uma redução de 36% a 50% das áreas de pastoreio até 2100. Este declínio comprometerá sistemas pecuários tradicionais, especialmente no Alentejo, onde as pastagens são vitais para a sustentabilidade económica e ecológica. A adaptação exigirá não apenas mitigação de emissões, mas também a adoção de modelos resilientes, como a agricultura regenerativa, que restaura solos e otimiza o uso da água.
Neste contexto, o aumento da concessão de água em Alqueva para 730 hm³/ano representa uma oportunidade estratégica. A expansão do regadio pode impulsionar culturas de alto valor e diversificar a produção, reduzindo a dependência de commodities brutas. No entanto, o desafio está em evitar a subutilização do recurso e garantir que a água seja alocada a projetos inovadores, como sistemas agroflorestais ou culturas adaptadas ao clima futuro, alinhando crescimento produtivo com sustentabilidade.
Ponte com o Alentejo e Agricultura Regenerativa
O Alentejo, epicentro da pecuária extensiva e da seca recorrente, é a região mais vulnerável às tendências descritas. A perda de pastagens exigirá a transição para práticas regenerativas — como o pastoreio rotacional e a integração lavoura-pecuária-floresta — que aumentam a retenção de água e carbono no solo. Alqueva, por sua vez, pode ser um laboratório para esta transição, desde que a água seja direcionada para iniciativas que combinem produtividade e regeneração, como a olivicultura de sequeiro melhorada ou a produção de leguminosas adaptadas. A valorização do território passará, assim, por uma dupla aposta: em tecnologia para capturar valor e em ecossistemas agrícolas que resistam ao clima do futuro.
🔗 Fontes e Referências
- O Campo Não Pode Continuar a Exportar Valor em Bruto — Vida Rural
- Alterações climáticas podem reduzir até 50% das áreas de pastoreio até 2100 — Vida Rural
- O Custo da Subutilização de Alqueva — Vida Rural
